22 de fev de 2010

Colômbia

   Uma viagem mais light, sem muita ralação. Uma semana na Colômbia, em Bogotá e Cartagena. http://nacolombia.blogspot.com .

15 de dez de 2009

O dia D


   Chegamos hoje, sábado, dia 5 de dezembro, em Brasília. Finalmente volto a escrever em um computador e a usar acentos. Todas as postagens anteriores foram feitas escrevendo com a canetinha do meu HTC Diamond e usando o wifi do hotel em Quito e do Tambopaxi
   Continuo sem sensibilidade nas pontas de todos os dedos das mãos. Sinto um formigamento constante, como se tivesse queimado os dedos. Quando tentei subir o Huaina Potosi, senti esse desconforto por vários meses em um dedão do pé. Espero que o incômodo passe logo.
   No dia do ataque ao cume, quinta-feira, 3 de dezembro, saímos do Tambopaxi de caminhonete às 14h40. Chovia um pouco, mas a chuva parou antes de começarmos a caminhar. Repetimos o percurso que já havíamos feito na terça-feira. Doze quilômetros e 34 minutos depois, chegamos ao estacionamento abaixo do refúgio. Gastamos mais 40 minutos para subir os cerca de 900 m de trilha até o refúgio Jose Rivas. Clique aqui para ver os dados desse percurso transferidos do meu GPS para o Every Trail.
     Chegando ao refúgio, constatamos que o abrigo já estava bem cheio. Havia cerca de 30 pessoas com o mesmo objetivo. Todas as camas mais baixas dos beliches de três andares já estavam ocupadas. Optamos por pegar os colchões do segundo andar de algumas camas e colocá-los no chão em um canto. Tirei as botas duplas que havíamos calçado desde a saída e coloquei as papetes que eu resolvi levar. Foi uma boa decisão! Consegui descansar e relaxar um pouco enquanto via todos andando com as botas de mais de dois quilos pelo pequeno espaço do refúgio.

      Tomamos uma sopa com pão, conversamos um pouco com nosso guia e com outros alpinistas. Encontramos novamente os três eslovenos que havíamos conhecido em Quito quando procurávamos informações sobre os guias. Um deles, que era o mais simpático, estava muito mal e quase não conseguia se levantar. Fiquei impressionado e me lembrei do meu estado no Aconcágua quando precisei voltar.
        Colocamos nossos sacos de dormir sobre os colchões e nos deitamos pouco depois das 18h. Por volta de 18h30, liguei o rádio do meu MP3 e procurei uma transmissão de Fluminense e LDU. Encontrei uma rádio com bom sinal e começamos a ouvir o jogo. Ouvi poucos minutos do jogo e resolvi tentar dormir. Cochilei pouco mais de uma hora e meia e acordei com a respiração ofegante e sentindo minha cabeça latejar. Mudei de posição várias vezes, mas não consegui voltar a dormir. Vi que o Maninho ainda estava acordado torcendo pela LDU e peguei o outro fone para ouvir o final do jogo. Faltavam poucos minutos e o narrador equatoriano estava empolgado e sofrendo com os descontos dados pelo juiz. O jogo acabou lá pelas 20h30 e comemoramos silenciosamente a derrota do tricolor. As luzes estavam apagadas e todos os outros pareciam estar dormindo.
      O Maninho me passou o MP3 e coloquei algumas músicas da Legião para tentar dormir. Não consegui! Ouvi várias músicas, incluindo Faroeste Caboclo e Eduardo e Mônica... minha respiração não voltava ao normal e minha cabeça continuava doendo. Percebi que o Maninho também estava acordado, mas não falei nada e continuei tentando dormir. Passei para algumas músicas do Mark Knopfler e, quando resolvi olhar o relógio, já eram quase 22h. Bateu um desespero e, pela primeira vez, pensei na possibilidade de não conseguir subir.
   Até o começo da noite, eu achava que estava bem aclimatado. Havia dormido perfeitamente nas noites anteriores. Parecia que eu estava bem melhor do que o Maninho. Troquei a trilha sonora para algumas músicas da Juana Molina, consegui relaxar um pouco, tirar as idéias de fracasso da cabeça e dormi pouco depois de 22h30.
   Às 23h45, todos começaram a se levantar para se preparar para a saída. Sentei-me, conversei com o Maninho e percebi que ele estava pior do que eu. Ele não havia conseguido dormir a noite inteira. Arrumamos rapidamente nossas coisas, revisamos nosso material, comemos pão e tomamos chá quente de laranja para nos preparar para a saída. Eu vesti apenas uma meia fina de poliéster e uma meia de lã; uma calça colada de elastano e minha calça dupla da Trilhas e Rumos; no tronco, tudo na North Face: uma camisa fina como segunda pele, um polar fininho e o anorak. Nas mãos, uma luva Titanium da Columbia por baixo da Recon da North Face. Calçamos as botas duplas, colocamos os arnets, pegamos os piolets, demos a última conferida nas mochilas de ataque e saímos.
   Começamos a subida exatamente à 1h01 e fomos os últimos a partir! Usávamos nossas lanternas de cabeça, mas a claridade da lua quase cheia assegurava uma boa visibilidade. Caminhamos um quilômetro em pouco mais de uma hora por uma trilha de terra fofa do refúgio em direção aos glaciares. Chegamos lá e paramos para colocar os crampons. Eu tentava não olhar para o alto para não ver a imensidão branca que faltava percorrer e as luzes das lanternas dos outros se distanciando.
   Continuamos a subir. O Gustavo ia à frente, o Maninho depois, e eu atrás, todos amarrados pelas cordas para garantir a segurança. Os caminhos eram bem estreitos e inclinados. Sentia-me seguro pela segurança do guia e pela firmeza ilusória que os crampons e o piolet me davam. Na realidade, sabia que, com minha pouca experiência, o piolet dificilmente seria útil em uma emergência.
   Eu tentava só olhar para baixo quando a inclinação não era muito grande. Víamos as luzes de Quito e de Machachi. De um lado, raios iluminavam de roxo um dos Pichinchas. Por breves instantes, pensei em tirar uma foto daquela paisagem fantástica, mas o frio e a necessidade de colocar o tripé para tirar uma foto com muito tempo de exposição logo afastaram essa idéia.
   Chegamos a um local em que a neve era bem fofa e eu fazia muito esforço para conseguir subir. Comecei a pensar na noite mal dormida e me deixei desmotivar. Olhei para o alto e pensei em desistir pela primeira vez. Pedi para o Maninho diminuir o ritmo. Mais algum tempo cramponando na neve fofa e tendo que fazer muita força com o piolet e o bastão e comecei a sentir fadiga nos braços e pernas. Eu trocava o bastão e o piolet de mãos constantemente, mas mesmo assim sentia meus dedos congelarem. Falei em desistir e o Maninho lembrou que, quando o sol nascesse, a temperatura melhoraria e eu ganharia um novo incentivo. Eu queria desistir, mas sabia que não poderia voltar sozinho e percebia que o Maninho parecia estar se sentindo bem. Mesmo andando bem devagar, já havíamos ultrapassado alguns grupos e cruzamos com um ou dois que já haviam desistido e voltavam para o refúgio. Resolvi continuar até encontrar alguém que voltasse com um guia para deixar o Maninho continuar. O Gustavo disse que a pior parte havia passado, mas eu não botei muita fé.
   Realmente os primeiros raios de sol me deram alguma energia. Só que eu estava preocupado porque sempre me lembrava da máxima de que o cume é só metade do caminho. Passamos por algumas gretas assustadoras e eu sentia cada vez mais os efeitos da altitude. Mais um pouco e os primeiros a chegar ao cume começaram a voltar. Os dois eslovenos desceram, também uma mulher bem mais velha, os dois casais de americanos... desisti da idéia de voltar e continuamos em meu passo lento e escorregadio neve acima.
     Junto com os primeiros raios da manhã, vem também aquela sensação mística que já experimentei em outras montanhas. Os crentes devem pensar em seus deuses nesses momentos. Eu me lembro de Fernando Pessoa e tenho cada vez mais certeza que deus é o monte e o sol e o luar. E eu não acredito nele em nenhuma hora. Sou um ser vivo insignificante de uma espécie comum subindo uma montanha qualquer ...
    Às 6h49, chegamos ao cume. Por alguns instantes, a euforia de chegar ao cume superou o meu cansaço. Depois da comemoração, tomamos o chá de laranja morno, quase frio, que havíamos levado em minha garrafinha térmica, e peguei a máquina e o celular e comecei a tirar fotos e filmar. Gostaria de ter tirado fotos melhores, ter pensado um pouco mais sobre os enquadramentos, mas não consegui. De qualquer modo, é o tipo de paisagem que a melhor câmera e o melhor fotógrafo não conseguiriam captar com precisão... ficamos cerca de 40 minutos curtindo a paisagem e descansando. Acho que três grupos ainda chegaram depois de nós.

   O Gustavo nos deixou curtir o sucesso, mas logo nos lembrou que deveríamos voltar para chegar ao refúgio antes que o tempo piorasse mais tarde. Mais duas horas de caminhada neve abaixo e chegamos ao final do glaciar. Tiramos os crampones e os arnets, soltamos nossa corda, e começamos a descer pela terra até o refúgio. Em pouco mais de meia hora, pouco depois das 10h, chegamos ao refúgio. Minha cabeça doía muito e eu sentia um cansaço muito grande. Compramos alguns gatorades e tomei um chá. Nem cogitei em tomar a tão sonhada cerveja do refúgio! Gastamos algum tempo arrumando as coisas que havíamos deixado nos armários, descemos até o estacionamento onde a caminhonete nos esperava para nos levar de volta ao Tambopaxi. Clique aqui para ver a rota do refúgio ao cume.
   Chegamos ao Tambopaxi, pegamos nossas mochilas, almoçamos e tomamos novamente a caminhonete para ir até Machachi onde pegamos um micro ônibus (buseta) para nos levar de volta até Quito.
    Dormi às 20h 30 para só acordar às 7h30. Quase totalmente recuperado e sentindo apenas um pouco de cansaço muscular. Fiquei satisfeito em ver que meu físico estava bem preparado. O que pegou realmente foi a adaptação à altitude no último dia.
     Terminei de escrever este texto no domingo à noite, depois de vibrar com a vitória do Botafogo sobre o Palmeiras. Viajei na segunda, dia 7, para Nova York e só voltei para Brasília ontem, dia 14. Meus dedos continuam sem sensibilidade. Apenas revisei o texto escrito há oito dias. Foi bom tê-lo redigido pouco depois. Agora, o sofrimento para chegar ao cume parece algo distante. Já penso em fazer essa besteira novamente...